• Rafaella Galardo

O sonho americano agora passa por comprar casa em Portugal

Investidores norte-americanos estão de olho no país e a pandemia reforçou o interesse no imobiliário nacional.

Portugal continua a dar cartas no paranoma internacional, e há cada vez mais investidores dos EUA de olhos postos no imobiliário nacional. Dados recentes do Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) confirmam, por exemplo, que os norte-americanos passaram a liderar o ranking do investimento captado por via dos vistos gold no país, ultrapassando chineses e brasileiros. O interesse não é de agora, mas tornou-se mais evidente na pandemia, período durante o qual Portugal “provou mais uma vez ser um país que oferece condições extraordinárias para as pessoas viverem”, revela a Head of Residental da JLL, Patrícia Barão, em entrevista ao idealista/news.


Chegam atraídos por condições geográficas e climáticas únicas, pela gastronomia, hospitalidade, e pelo custo de vida que Portugal oferece. O investimento em imobiliário que vem do outro lado do Atlântico começou a ganhar força ainda antes da pandemia. Em 2018, o Washington Post incentivava os norte-americanos a investirem na compra de uma casa em Portugal, nomeadamente em Cascais, indicando a cidade como atrativa e barata para viver confortavelmente, isto é, com uma boa relação qualidade/preço, ou melhor, qualidade de vida/custo de vida.


Os anos passaram, e a atratividade não só mantém-se, como está a crescer. Numa entrevista ao idealista/news, à margem do Salão Imobiliário de Portugal (SIL) de 2022, Patrícia Barão dá nota de que o mercado internacional, com novas nacionalidades, “continua a olhar para Portugal como uma grande oportunidade”, e que “isso acontece agora com o mercado norte-americano, que tem sido um mercado que tem estado muito dinâmico”.


Segundo a especialista em imobiliário residencial, Portugal oferece uma coisa que para os internacionais “é muito importante”: o custo de vida que, para eles, “é muito interessante”. “Depois, os norte-americanos procuram muito o sistema de saúde em Portugal, acham o nosso sistema de saúde incrível. Nós trabalhamos bastante com este público e é incrível ouvi-los a falar disso. Aquilo que para nós, muitas vezes, está associado a algo com tantos defeitos, eles chegam e acham extraordinário”, aponta.


Pandemia acelera investimento dos EUA em Portugal?


Em 2020, em plena pandemia, um estudo do idealista sobre o mercado imobiliário à venda no sul da Europa mostrava que as zonas costeiras destes territórios continuavam atraentes para os investidores estrangeiros.

Entre junho e setembro desse ano, aliás, os EUA destacaram-se como um dos países mais ativos na procura de propriedades localizadas junto ao litoral nacional, por exemplo. O estudo sobre a procura internacional na costa portuguesa, indicava que os contactos dos EUA estavam no topo da lista em 211 das localidades analisadas, com grande peso no Porto, Lisboa, Cascais e Estoril, Algarve e também Açores.


A presença da “pegada” norte-americana foi-se tornando mais forte e evidente. O relatório anual do mercado residencial 2022, preparado pelo idealista/data, dá conta disso mesmo. Numa análise global, o estudo revela que a procura, tanto por casas para comprar como para arrendar, aumentou durante a pandemia, apesar de algumas limitações decorrentes das restrições à circulação, com impacto, também, nas nacionalidades que procuram casa em território nacional.


O que o relatório anual do idealista/data diz, em concreto, é que, em 2021, a procura de casas por parte dos brasileiros foi reforçada, representando 14,2% do total; a França manteve o segundo lugar do pódio com 11,7%, e que em terceiro apareceu, pela primeira vez neste período, os EUA, representando quase 10% do total.

Ainda no que diz respeito ao universo imobiliário, e ao impacto dos norte-americanos no mesmo, é importante destacar a notícia recente sobre o investimento imobiliário captado através dos vistos gold. Segundo dados do SEF, o investimento oriundo dos EUA (destronou a China) e mais que triplicou no trimestre deste ano, face a igual período de 2021, para 25,1 milhões de euros, correspondendo a 52 vistos gold atribuídos. Há um ano, o investimento norte-americano captado por via dos vistos dourados era de 6,8 milhões de euros (13 ARI concedidos).


A conjuntura económica mundial, de resto, também poderá influenciar as dinâmicas da procura internacional e as compras dos clientes americanos. O euro perdeu cerca de 8% do seu valor face ao dólar, resultado de diversos fatores como é o caso dos aumentos das taxas de juro pela Reserva Federal dos EUA, e este cenário poderá repercutir-se no mercado imobiliário, até porque agora comprar casa fica mais barato no espaço europeu para quem fizer o pagamento em dólares. O que é que isto significa? Ainda ninguém sabe, mas neste artigo os especialistas tentam traçar cenários.


Assim, e para tentar perceber melhor o que procuram os investidores em Portugal, em termos de imóveis e localizações, mas também quais são os principais desafios ao investimento, numa entrevista em modo “fast-check”, Patrícia Barão da JLL, deixa pistas para o futuro.

A conjuntura geopolítica e económica atual já está a ter impacto no imobiliário residencial?


Nós tivemos o melhor trimestre de sempre, e o que nós sentimos é que o mercado residencial está com um dinanismo incrível. Nós sabemos que viemos de uma pandemia, e registamos alguma preocupação, principalmente do mercado nacional, com o tema do aumento das taxas de juro, efeito da inflação, mas o que nós sentimos é que há muita poupança também e o mercado doméstico continua muito ativo.


Há essa nuvem que se sente, porque esta tensão existente da Rússia com a Ucrânia, sabemos que teve efeitos devastadores naquilo que são obviamente todos os mercados, e ainda há o tema do aumento dos custos de construção, face aos aumentos dos preços dos combustíveis, dos materiais, e de toda esta situação política e económica que estamos a viver, mas a verdade é que o imobiliário residencial não está para já a ser afetado.


O que sentimos é que continuamos a lançar os projetos, os projetos continuam a ser vendidos, e o mercado internacional está em força. No 1º trimeste vendemos imóveis a 30 nacionalidades diferentes, portanto, o mercado internacional está muito forte. O ano passado, num ano inteiro, vendemos a 47 nacionalidades diferentes, e portanto este ano só passou um trimestre... Estamos a ter uma dinâmica incrível, apesar de toda a preocupação que sentimos.


A oferta continua a ser insuficiente para a procura? Faltam casas em Portugal?


Esse cenário mantém-se. Nós continuamos a ter, eu diria, quase um desfasamento entre aquilo que é a oferta e a procura. Na última década, o aumento do parque imobiliário foi de 1,8%, ou seja, é muito pouco face à procura existente. O que nós sentimos é que, de facto, tem que ver aqui um melhor ajustamento ou um balanço melhor entre aquilo que é oferta e a procura. Continuamos a sentir que o mercado internacional, com novas nacionalidades, continua a olhar para Portugal como uma grande oportunidade. E isso acontece agora com o mercado norte-americano, que tem sido um mercado que tem estado muito dinâmico. A procura está a crescer em novos mercados.


A pandemia não acabou, mas estamos numa fase mais leve da crise pandémica, e o facto das pessoas poderem trabalhar remotamente também se tornou aqui num aspeto importante. Há mais clientes internacionais que vêm viver para Portugal, ou seja, este cenário fez com que mais clientes dessem entrada no país.

Portugal provou ser um país que oferece condições extraordinárias para as pessoas viverem. Ou seja, a nossa exposição aumentou. Isto veio novamente mostrar que o país continua com esta dinâmica. Paralelamente a isto, os projetos que têm sido lançados têm sido muito bem absorvidos, mas não chegam. Continuamos a sentir falta de produto em determinadas localizações onde existe uma forte procura.


E os preços vão continuar a subir?


Eu diria que já não temos uma situação como tivemos há uns anos, em que os preços aumentavam em dois dígitos. Não vejo que isso vá acontecer. Mas vejo uma estabilização e em algumas localizações, sim, alguns ajustes em alta. Esta situação não se resolve num ano, nem em dois. Ainda vamos demorar algum tempo até conseguir fazer esta correção.


Quais são os principais desafios ao investimento em Portugal?


Eu diria que vai depender muito da nacionalidade. Por exemplo, os brasileiros têm a grande vantagem da língua, mas depois temos o tema do câmbio do real para o euro e esse é um desafio, por exemplo. Para os franceses, além da língua, não conseguirem às vezes ter escola para as crianças, porque o liceu francês está com uma lista de espera muito longa. Tivemos situações muito concretas de clientes franceses que tiveram de adiar a vinda porque têm de ficar à espera. São apenas alguns exemplos e especificidades interessantes.


Portugal oferece uma coisa que para os internacionais é muito importante, que é o custo de vida, que é muito interessante. Depois os norte-americanos procuram muito o sistema de saúde em Portugal, acham o nosso sistema de saúde incrível. Nós trabalhamos bastante com este público e é incrível ouvi-los a falar disso. Aquilo que para nós, muitas vezes, está associado a algo com tantos defeitos, eles chegam e acham extraordinário o que temos, e posso dar exemplos.


Um casal dos EUA com quem tivemos conversações recentemente, estava a fazer as contas para que o bebé de que estão à espera possa nascer cá em Portugal. A pessoa em questão quer ter cá o bebé, porque foi visitar o hospital etc.., e ficou muito agradada com tudo.

Ou seja, consoante a nacionalidade, os desafios vão sendo diferentes, mas eu diria que de uma forma geral nós não somos um país com grandes entraves, pelo contrário. Conseguimos oferecer a maioria das coisas que lhes fazem falta.


E que tipo de casas se procuram e onde?


Tem muito a ver com o que vai ser a dinâmica destas pessoas. Para quem não tenha de estar às 09h00 em Lisboa e não tenha que fazer, por exemplo, a A5, viver em Carcavelos ou em Cascais ou naquelas localizações é uma opção ótima. Está-se perto da praia, há moradias ou apartamentos com espaços exteriores e uma série de requisitos que são muito interessantes para essas pessoas.

Para outros profissionais que se mudam para Portugal, integrados em determinadas empresas, esses querem uma centralidade. Querem estar próximo do metro, do centro da cidade, procuram casas que sejam apartamentos, mas apartamentos no centro, e possam deslocar-se rapidamente a pé aos mais variados serviços.

Depois há o tema das crianças, se estão ou não na escola. Procuram casas que possa ser próximas dos estabelecimentos de ensino. Ou seja, vai depender muito do estilo de vida e da motivação que traga as pessoas à procura de casa para depois encontrarem uns bairros que possam ser mais interessantes para eles.


Há vários novos projetos a nascer na Grande Lisboa. Que impacto terão e quais as tendências?


Eu diria que os mais impactantes na cidade irão ser, por exemplo, o projeto da antiga Feira Popular, em Entrecampos. Vai ser altamente emblemático para a cidade e é um projeto que está muito para breve. E vai ser muito impactante porque tem um mix de usos, de residencial, de escritórios, de serviços, mas que está muito bem desenhado, e que vai trazer uma dinâmica à cidade. O projeto que era o antigo Metropolis, junto ao estádio do Sporting, que se vai chamar Campo Novo, que também é um projeto de grande escala, de que a cidade também vai beneficiar. Ainda uma outra referência que se fala muito no setor, que é o Quarteirão da Portugália, que é aquele quarteirão emblemático que também vai ser um dos grandes projetos. Eu falo destes três, porque são exemplos que têm uma escala grande e que vão impactar a cidade. Diria que estes são projetos que vão claramente transformar os bairros onde estão inseridos e que são projetos que vão deixar aqui uma marca para as próximas gerações.


fonte: Idealista

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