• Rafaella Galardo

Confinamento não travou o negócio das imobiliárias

Durante um mês, os operadores imobiliários tiveram de fechar portas e reduzir as visitas a imóveis a quase zero. Mas os negócios continuaram a acontecer e até houve quem comprasse casa sem a ver. Os primeiros meses de 2021 deixam antever um ano bom para o setor.

Segundo Nuno Folgado, Nuno Santos e Lisete Nina, a Remax teve em 2020 um dos seus melhores anos.

Segundo Nuno Folgado, Nuno Santos e Lisete Nina, a Remax teve em 2020 um dos seus melhores anos.

© Líbia Florentino / Global Imagens

É com otimismo que Nelson Folgado, diretor comercial da Remax Latina II, em Lisboa, olha para os números das transações dos primeiros dois meses do ano. Apesar do confinamento de um mês, em que as agências imobiliárias foram obrigadas a fechar portas e a cortar as visitas a imóveis, o diretor comercial desta loja, situada na zona da Estefânia, acredita que há condições para terminar 2021 com resultados tão positivos como nos últimos anos. “Tivemos o melhor mês de janeiro dos últimos três anos e o melhor mês de fevereiro dos últimos dois anos”, garante. A diretora financeira e administrativa das lojas ERA de Alvalade, Campo de Ourique e Alameda tem a mesma convicção. “Neste primeiro trimestre de 2021 tivemos até uma faturação superior ao período homólogo”, justifica.

Em tempos de pandemia, há fatores que podem condicionar estas previsões, como as moratórias e até a forma como decorrerá o processo de vacinação, mas ambos concordam que o imobiliário continua a ser bastante apelativo. Nos últimos meses, tornou-se mais desafiante, com as restrições impostas pelo estado de emergência a obrigar os operadores a inovar, quer para seguir as normas do distanciamento social quer para acompanhar as alterações nas tendências do mercado, consequência da pandemia.

“Temos de nos adaptar. Vivíamos com muitas transações na região de Lisboa, com valores superiores, que alimentavam o negócio, e agora temos de sair da região de Lisboa”, constata Nelson Folgado, diretor comercial de uma loja que é líder de faturação da Remax. “O número de terrenos aumentou substancialmente, algo para que não estávamos preparados. Terrenos de média dimensão, de 300, 400, 500 metros quadrados, que permitem construir uma moradia. A venda de quintas de pequena dimensão disparou e a venda de moradias mais ainda. E para zonas inimagináveis. Eu nunca pensei no ano passado fazer três ou quatro vendas em Almeirim, Marinhais, que tivéssemos produtos em Abrantes… Concentrámo-nos muito na região de Lisboa e, de repente, os clientes pedem-nos algo para que não estávamos preparados e tivemos de nos adaptar”, explica.

Arrendamento cresce em Lisboa

Sem turistas, com menos investimento estrangeiro, Lisboa deverá manter a tendência do arrendamento. A passagem do segmento do alojamento local para o arrendamento de longa duração veio aumentar a oferta, o que se repercute no valor das rendas, que baixou cerca de 20%. Mesmo assim, se a pandemia permitir e os turistas regressarem, esta deverá ser uma tendência a curto prazo, até porque a maioria da oferta está a ser feita com contratos a um ano.

Já o valor dos imóveis para venda na capital, que se tornou incomportável com a enorme procura por parte de investidores estrangeiros, tem registado desde 2018 uma tendência ligeira para baixar. “Aquilo que nós sentimos foi que os proprietários daqueles imóveis que estavam muito acima do valor de mercado sentiram-se obrigados das duas uma: ou a retirarem esse imóvel de venda ou a atualizarem para os valores de mercado. A nível de valores não houve nenhuma descida significativa. Não deixa de ser Lisboa”, considera a responsável financeira e administrativa de três lojas ERA da capital. Segundo dados do INE publicados recentemente, em 2020, as transações na Área Metropolitana de Lisboa diminuíram 8,1%, em número, e 0,2% em valor, face a 2019.

No último ano, as agências tiveram de de inovar e adaptar-se às medidas de contingência impostas pelo estado de emergência: recorreram aos vídeos, fazendo tours virtuais pelas casas

Em contrapartida, na periferia, os preços aumentaram, fruto da fuga de Lisboa nos últimos anos e de novas necessidades criadas pela pandemia. “As pessoas procuram espaços exteriores, porque estão muito em casa, porque está instalado o teletrabalho. Tentam ter casas maiores, com espaços exteriores, claro, e em Lisboa é muito difícil. Então tentam a periferia, com preços melhores”, constata Lisete Nina, agente Remax. “O que sentimos é que há mais procura por imóveis com algum tipo de espaço exterior, desde um pequeno terraço ou uma varanda, desde que tenha um espaço exterior. Por exemplo, aquela divisão extra que possa ser usada para espaço de trabalho, escritório para o teletrabalho”, concorda Mafalda Beleza, da ERA. Além disso, aumentou a venda de terrenos para construção. “Existe muito isso, as pessoas venderem o seu apartamento numa zona citadina e comprarem o terreno para fazer a construção. Temos sentido isso bastante”, acrescenta.

Os piores cenários, traçados há um ano, que adivinhavam uma crise no setor em 2020, não se concretizaram. “Falava-se que o mercado imobiliário iria descer 20%, 30%. Não foi isso que aconteceu. Nós também estávamos com um bocadinho de receio, não sabíamos o que se ia passar. Mas não, efetivamente não. Subiu até cerca de 2%”, constata Nuno Santos, agente Remax. “Tivemos o segundo melhor ano de sempre na loja de Lisboa. E é preciso também dizer que 2020 foi o terceiro melhor ano de sempre do imobiliário. Num ano de crise pandémica, a verdade é que, uma vez mais, o mercado imobiliário demonstrou o quão resiliente e atrativo é”, acrescenta Nelson Folgado.

Os dados avançados pelo INE revelam que em 2020 foram transacionadas 171 800 habitações, menos 5,3% do que em 2019 e o primeiro recuo no número de transações de alojamentos desde 2012, “refletindo o contexto económico adverso decorrente da pandemia de covid-19”. Em valor, os alojamentos transacionados no ano passado somaram 26,2 mil milhões de euros, mais 2,4% face a 2019. Os preços da habitação aumentaram 8,4% em 2020, desacelerando face ao crescimento de 9,6% em 2019, mas mantendo a “dinâmica de crescimento” apesar do “contexto desfavorável” resultante da pandemia.

Digital como ferramenta

No último ano, as agências tiveram de inovar e adaptar-se às medidas de contenção impostas pelo estado de emergência. “Em março do ano passado, tínhamos alguns imóveis com vídeos, com algumas explicações… Com virtual tour, tínhamos pouco, realmente pouco. Era mais destinado ao mercado internacional. Hoje qualquer imóvel deve ter, na nossa opinião, virtual tour, um vídeo com algumas explicações e uma boa reportagem fotográfica. Isso é quase crucial. Permite ao cliente não visitar, mas observar o imóvel in loco. É como se estivesse na casa, consegue até fazer medições. Se quiser tirar a medida dos cortinados consegue”, constata Nelson Folgado.

Só aqui já é possível reduzir as visitas presenciais a imóveis. “Nós tínhamos o chamado turismo habitacional. Que era fazer dez visitas num dia“, lembra Nuno Santos. Agora, há ferramentas digitais que permitem até comprar uma casa sem a visitar. Mafalda Beleza, da ERA, lembra o caso de um cliente angolano que estava em Londres e que não conseguindo viajar para Portugal durante o primeiro confinamento visitou imóveis por videochamada e avançou para a compra sem nunca o ter visitado. “Fez todo o processo à distância, inclusivamente o crédito-habitação. O cliente só veio a Portugal para a escritura”, conta.

O número de terrenos aumentou substancialmente, algo para que não estávamos preparados. Terrenos de média dimensão, de 300, 400, 500 metros quadrados, que permitem construir uma moradia

Também o evento Casa Aberta, uma marca desta rede de agências, passou a ser integralmente digital durante o confinamento, altura em que as poucas visitas presenciais que aconteceram se limitaram a casas devolutas ou acabadas de construir. “Fiz uma visita com um cliente, em que eu abri o apartamento, completamente sozinha, depois o cliente fez a visita sozinho, não nos cruzámos sequer, e depois todas as dúvidas que ele quis tirar fizemos por videochamada”, lembra Lisete Nina, da Remax.

Terminado o confinamento, e apesar de o setor parecer ter condições para continuar a ser um dos pilares da economia nacional – representa cerca de 12% do PIB -, ninguém tem dúvidas: “Uma porta aberta é sempre uma porta aberta.”

Fonte: Diário de Notícias

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